Detalhes, são só detalhes

Sempre tive essa característica. Quando eu me deparava com algo, meu foco nunca era o considerado óbvio por um, até então, senso comum.

Em um filme, meus favoritos nunca eram os mocinhos. Eram os ajudantes retardados ou, geralmente, os vilões mega-ultra galudos. Apesar do Mufasa me fazer chorar em seu leito de morte, o Scar e sua reboladinha na música do mal eram muito mais tr00. E os ajudantes (hienas) eram a melhor parte do filme. Que morra o Superman, as frases do Luthor são as melhores ever. O Duas caras era O cara (seta aponta em brilho rosa: trocadilho ruim).

Os heróis me pareciam muito surreais, perfeitos demais, capazes demais, como ninguém poderia ser na vida real. Eles só existiam para nos lembrar do quanto somos pequenos, fracos, insignificantes e dependentes de alguma proteção. Tornava as características dos vilões um lado mal de um sistema maniqueísta: egoísmo, egocentrismo, o poder e a capacidade de fazer mal a alguém, a submissão às paixões. Descrição do vilão ou da nossa sociedade? Me perdi.

Em uma foto, o belo e grande sorriso do modelo sempre me pareceu secundário. A pessoa lá atrás com a cara engraçada que nem percebeu que saiu na foto (ou percebeu na hora que viu o flash, o que torna apenas mais engraçado) essas sempre chamaram mais atenção. É como se meus olhos já as procurassem.

Aquilo que não prende a atenção de ninguém, aquilo que não se toma sequer como detalhe, tudo aquilo que compõe um ambiente pelo simples fato de existir e estar, e não por “ser notado”, enfim, isso, que muitos consideram desnecessário sempre me atraiu muito mais. Alguns já me dizem que é minha incapacidade de concentração no “certo”. Outros dizem que é minha falta de objetividade.

Eu prefiro acreditar que sou uma detalhista às avessas.

Primeiro semestre

Achei um texto que escrevi na minha primeira semana de aula na faculdade. Haha Adoro esse texto e de lembrar da sensação que eu tive quando aquele semestre começou:

E hoje fez uma semana de aula. Mas ninguém tem vontade de saber o que estou achando das teorias filosóficas desse semestre. Então, já que é para falar de algo que ninguém quer saber, vamos aos detalhes que ninguém quer que o pior inimigo saiba.

Então, é uma semana. Uma semana pegando metrô pseudocheio com gravatinhas e sapatos altos para descer duas ou uma estação antes de você, ou até mesmo na sua.

Uma semana andando em uma rua cheia e barulhenta para chegar ao meu prédio. E, nessa rua, uma semana escutando o mesmo CD e a mesma música evangélica dizendo o quanto Jesus é bom, salvador e espantador de demônios de corpos de homens maus que, caso não haja Sua intervenção, vão pro inferno para lá serem torturados eternamente. (Y) A misericórdia, em toda sua magnitude, me comove.

Uma semana subindo até o terceiro andar numa escada que faz o mesmo barulho que a mais velha porta da mais velha casa da mais velha vila da mais... E isso porque o elevador, mesmo que funcionando, o está fazendo por meios da rede pública. Eu não quero estar lá dentro quando ele entrar em greve, exigindo mais óleo ou algo parecido.

Uma semana vendo as mais bizarras figuras (e coloco aqui como um ponto neutro, considere-o positivo ou não) da face da terra. Como um cara que tem moicano e tatuagens pela cabeça e veste tudo quanto é tipo de roupa de couro e coturnos no centro do Rio, lugar mais fresco ever. Não bom estar perto dele quando agitar aquelas roupas, não bom. Além disso, não costumo confiar em homens que usam mais maquiagem que eu (e ele só usa lápis) assim, no dia a dia.

Uma semana passando por moicanos verdes e amarelos, alargadores como um tipo de lei entre os alunos, piercings em todos os locais (visíveis pela decência, apenas, espero) e tatuagens do símbolo ÔM, flor de lótus e afins. Nada contra, mas esses fatores são como uma regra por lá. É absurda a capacidade que as pessoas tem de serem tão iguais enquanto tentam existir desesperadamente e excessivamente no mundo alheio.

Uma semana escutando aqueles que já foram eleitos no meu top 5 de pós-modernos principais, excêntricos e deliberadamente filosóficos falando em momentos que ninguém quer ouvir, suas próprias teorias aleatórias e completamente desnecessárias.

Uma semana enfrentando filas da xerox, sentindo o cheiro das comidas engorduradas da cantina. Uma semana respirando a fumaça dos milhares de marcas de cigarro que (praticamente TODOS OS ALUNOS) fumam por lá. Uma semana viajando com o cheiro da fantasia que vem do quarta andar, para nos trazer a magia do mundo dos cogumelos. Uma semana ouvindo as frases mais pedreiramente engraçadinhas.

Mas apesar de tudo isso, estou gostando das aulas (lógica clássica não vale, eu não consigo me concentrar num professor que é igual aqueles cientistas loucos de filme que sempre são passados para trás pelo vilão da história).

Arrasou, facul.

Carnaval

Como toda boa carioca exemplar, eu não poderia passar esses dias sem dizer nada sobre Carnaval. Afinal de contas, tudo e todos somem perto da alegria, glamour e emoção das escolas de samba. O Haiti perde todo seu brilho ao ser colocado lado a lado com Madonna e Jesus, brindando nossa maior festa.

O que me surpreendeu foram os comentários que vi na rede Twitter, criticando a falta de pudor na Sapucaí. Mas lembrem-se que podemos ver pior na praia. E mudar a imagem do país no exterior vai além do simples ato de vestir peças de roupa.

Só digo isso: Se as mulheres quiserem sair peladas na avenida, deixe a bichinha de divertir. Acho que os direitos são iguais e homens deveriam fazer o mesmo.